Cap XIII
(...)
— Elas não tinham nada, mamãe — disse Angharad, sem nenhum sinal de medo. — Os patrões puseram-na para fora da casa sem nada. Nem um graveto, nem um farrapo. E o novo bebê deve vir hoje. Só tem palha para deitar-se em cima. E as sete outras crianças.
— Psiu, agora — disse minha mãe. — Já sei bastante. Vou ver isso. Mas não me faça mais dessas pelas minhas costas, de dar lençóis e cobertores. A dona da casa sou eu.
— Sim, mamãe — disse Angharad, piscando os olhos para mim, e eu para ela.
— Suponho — disse minha mãe, como se seu pensamento estivesse para lá da montanha — que nada mais saiu em companhia dos lençóis e cobertores, não é? Seria realmente exigir muito da Sr tá. Angharad Morgan?
— Pois bem, mamãe — disse Angharad, tão bonita, de se ficar de boca aberta —, havia também algumas marmitas e panelas velhas, lá fora.
— Adiante — disse mamãe. — Marmitas e panelas.
— E algumas das roupas velhas dos rapazes — contou Angharad nos dedos — e umas do papai.— E algumas das minhas — disse mamãe, num tom de voz quase impossível de ouvir-se.
— Sim, mamãe — disse Angharad —, e também das minhas. E minha capa.
— Sua melhor capa, sem dúvida — disse mamãe, no mesmo tom de voz e de fisionomia severa.
— Sim, mamãe — continuou Angharad. — Eu só a usava nos domingos e o inverno já se foi. Onde eles estão faz muito frio e só têm palha forrando o chão e buracos no telhado.
— Passe bem a vista por toda a casa — disse mamãe, com sua voz habitual —, porque acho que ainda encontraria muitas coisas que a Sra. Bey non precisaria. Mas talvez, se mandarmos vir uma carroça, poderíamos arranjar tudo, não?
— Oh! mamãe — disse Angharad, e seus olhos, já tão grandes, estavam agora maiores, cheios de lágrimas —, a pobre da Tegwen Bey non só tinha um vestido. Nada mais. E nem almoço para esta manhã. Estava tão branca, a coitada!
— Angharad, minha filhinha — disse minha mãe, indo cercá-la com os braços, pois ela havia empurrado seu jantar e baixara o rosto sobre a mesa. — Ouça, agora. Eu estava zangada porque não fui consultada. De outra vez, pergunte antes. Ouviu?
— Sim, mamãe — disse Angharad, pedindo o meu lenço. — Que poderemos fazer pelo novo bebê?
— Vá em casa de Bron e peca-lhe algumas das roupinhas velhas de Gareth.
Prepararei um cestinho de comida, agorinha mesmo. Huw, vá aí pela colina com um cesto e peça alguma sobra de comida que houver.
— Sim, mamãe.
Pois haviam de ver o que se conseguiu reunir!
As roupas teriam coberto uma turma inteira da mina. A comida, bastante para a vila toda. E já então estava reunido todo o mobiliário, que duas casas não conteriam.
Pois bem, tudo ali estava e não faltavam mãos para levar aquilo ao velho barracão, junto das fundições.
Desci lá primeiro, com o cesto de comida, e, realmente, era um lugar miserável.
A Sra. Bey non jazia sobre um de nossos velhos cobertores vermelhos e o outro estava armado por cima dela, para preservá-la da água que escorresse do telhado. Evan Bey non partira uma tábua para fazer fogo e, num velho balde, fervia a água. Rodas enferrujadas e tirantes de ferro quebrados vermelhejavamentre os capins altos e os dentes de leão. Os charcos estavam cheios de água e um ribeiro corria diretamente para o rio. Frio e umidade também.
As três crianças mais moças estavam dormindo aos pés da Sra. Bey non, eduas mais, ainda pequenas, brincavam de armazém, com pedras, na janela.
Tegwen e seu irmão menor punham palha em sacos, preparando camas para anoite.
— Olá, Teg — disse eu, parando à porta, embora porta não houvesse.
— Olá, Huw — disse ela, parecendo envergonhada. — Estamos metendo palha nos sacos. A palha vai fugindo debaixo da gente, quando nos viramos, dormindo — disse ela, tentando fazer graça.
— Sim, sim — disse eu, como se dormisse em cima de palha todas as noites
desde que nasci. — Trouxe aqui uma torta.
— Muito bem — disse ela. — Mamãe vai ficar muito contente quando a provar.
— E chá.
— Chá? Ó, meu Deus. Vou botá-lo na chaleira. Depressa.
— Como está a Sra. Bey non? — perguntei-lhe, pois, pelo que pude perceber, ela estava sentindo dores, gemendo, com espuma na boca, o rosto avermelhado, e o suor empastando-lhe o cabelo.
— A Sra. Price não tardará a chegar aqui agora —- disse Tegwen, soprando o fogo. — Então ela melhorará.
— Que tem que ver a Sra. Price com isso?
— É que então o novo bebê chegará, rapaz — disse Tegwen, rindo. — Foi para isso que Angharad me deu o lençol.
— É a Sra. Price então quem traz o bebê? — perguntei-lhe, muito surpreso.
Tegwen sentou-se, rindo bem alto, depois pôs uma mão na boca e olhou para sua mãe.
— Como você é tolo, rapaz — cochichou ela, com os olhos brilhantes. —Fique sabendo que o novo bebê está com a mamãe. Mas a Sra. Price é quem sabe como tirá-lo dela. Dê-me as xícaras, depressa. Eu não teria coragem de beber nas únicas xícaras que consegui encontrar, mas a Sra. Bey non bebeu à vontade, embora sem dar sinal de que soubesse onde se achava, ou o que estava bebendo.
— Onde está o novo bebê, então? — perguntei a Tegwen, pois não via sinais
disso.
— Morda aqui — disse Tegwen, mostrando o dedo. — Então você nada sabe a respeito de bebês? — E olhou-me como se pensasse que eu era um idiota.
— Não sei, não. Tivemos novos bebês lá em casa e na de Bron, mas eu pensava que era o Dr. Richards quem os trazia dentro da maleta.
— Quem lhe contou isso?
— Minha mãe e Bron.
— Tudo é mentira.
— Como sabe? Você só tem doze anos e precisa ainda de um ou dois anos de
escola.— Mentiras. Espere e verá.
— Como, então?
— Quando a Sra. Price chegar, nos mandará para fora daqui, de modo que daremos a volta por detrás e olharemos por aquele buraco lá em cima. Ergui a vista para onde ela apontava e vi uma tábua podre, meio dependurada do forro, que descobria um buraco escuro.
— Está bem — disse eu.
Depois começou a chegar gente com as coletas e todas as mulheres diziam
”Oh!” ”Ah!” estalando as línguas, tirando as capas para limpar o lugar, cortar o capim e afastar o ferro velho. Depois começaram a chegar os homens, amarrando cordas para armar lonas por cima dos lugares piores, e pondo tábuas na janelas e portas abertas. O certo é que, num par de minutos, ficou tudo tão bem-arrumado que eu mesmo poderia ali viver.
O Sr. Bey non entrou e olhou por um instante, saindo a chorar. Em seguida, veio a Sra. Price com uma trouxa e uma elegante maleta, cheia de desenhos, feita de lona.
— Agora — disse ela, mal pondo os pés dentro da porta — vocês dois me façam o favor de dar o fora. Todos os meninos, agora mesmo. Vamos logo.
— Venha — cochichou-me Tegwen, e saímos, lá para o terreiro, subimos os degraus das oficinas e entramos onde os morcegos se apinhavam no telhado e voavam com cicios enraivecidos.
Aproximamo-nos do buraco e espiamos.
A Sra. Price havia colocado as crianças menores na armação de cama, ao lado, e a outra mulher, que estava com ela, tirava-lhes as roupas. A Sra. Bey non chorava, não baixinho, mas alto, como um menino que caiu e ralou um joelho.
Dava pontapés nas roupas e seu rosto estava inchado, cheio de veias.
— Coitada da mamãe — disse Tegwen, bem baixinho —, ela sempre sofre assim com cada bebê.
Tive vontade de perguntar por quê, mas não tinha nada com isso. Havia algo de feio e de cruel naquilo, que eu podia sentir mas não descrever. A Sra. Bey non era uma mulher grande e gorda, sempre muito alegre, mas vê-la naquele estado era o mesmo que estar em sonho. Comecei a sentir calor e dificuldade emrespirar.
Subia até nós também um cheiro estranho. Muitas vezes o senti perto de casas onde um bebê acabava de chegar. É um cheiro intenso, primitivo, contendo os segredos do sangue e do leite, com ternura e terror.
A Sra. Price dirigiu-se ao fogo e trouxe de lá o balde para o lado da cama. A Sra. Penry acabara de arrumar as crianças e viera colocar-se à cabeceira da Sra. Bey non. A Sra. Price puxou os cobertores logo que a Sra. Bey non começou a dar gritos, e a Sra. Penry guiou-lhe as mãos para a barra de madeira, que havia à cabeceira da cama. As crianças acordaram e começaram a chorar, masninguém se incomodou com elas. As pernas da Sra. Bey non pareciam hastes
brancas e davam pequenos pontapés, seus dedos se encurvavam e seus calcanhares escarvavam a cama. A boca escancarada a gritar e os olhos arregalados, selvagens, horrível de ver-se, voltada para cima como estava para mim. A Sra. Price e a Sra. Penry estavam fazendo alguma coisa com ela, mas o que fosse não tenho certeza, pois apenas podia ver-lhes as costas lá embaixo e os morcegos voejavam em torno de nós, despertados do sono pelo choro, pelo lamento, pelo soluço e pelos gritos, arremetendo para nosso lado, como se nós tivéssemos alguma coisa com aquilo.
— Lá está — disse Tegwen, no meu ouvido, puxando meu braço para eu ficar
mais perto do buraco. — Veja. Lá está o novo bebé.
Mas só consegui avistar alguma coisa avermelhada, naquela luz sombria roupas manchadas nas mãos torcidas da Sra. Price, por cima do balde, e os dedos dos pés da Sra. Bey non, agora sossegados. Voltei-me envergonhado e enojado, pois sentia que estivera num lugar onde somente os loucos deveriam pôr o pé.
— Deixe-me ir embora daqui — disse eu.
— Espere — disse Tegwen. — Ainda há muito mais coisa para ver.
— Vou-me embora daqui agorinha mesmo — repliquei e arrastei-me sobre mãos e joelhos para a entrada.
— Acredita agora? — perguntou Tegwen, com risos na voz.
— Sim — respondi, enjoado, baixando a vista para os negros degraus.
— Veja lá, não vá contar a ninguém. Senão haverá encrenca, na certa.
— Está bem. Agora, adeus — disse eu e atravessei o terreiro, o mais depressa que pude. Selvagem alegria me invadiu ao achar-me ao ar livre e senti-lo arrepiar-me. Achei que merecia mais do que um arrepio de frio. Achei que deveria lançar-me na boca dum poço de mina, ou sob as rodas dum carro de feno, ou emaranhar-me na engrenagem do elevador da mina, tão rebaixado me sentia. Mas, em vez disso, corri para a casa de Bron e sentei-me na cadeira habitual.
Bron estava passando roupa, borrifando água nas roupas brancas engomadas, cuspindo no ferro para sentir-lhe o calor, apoiando-o com força nas peças lisas, para dar-lhes polimento, e docemente sobre os babados e bordados.
— Então — disse ela —, como vai o grande homem, esta noite?
— Acabo de ver a chegada de um novo bebê para a Sra. Bey non.
Bronwen continuou a passar, como se nada houvesse ouvido, mas seu rosto se avermelhara e seus olhos piscavam, como se o calor do ferro fosse demasiado.
— Como aconteceu isso? — perguntou-me ela, mas serenamente e olhando ainda para a roupa lavada.
— Estive olhando pelo buraco duma tábua.
— E agora está satisfeito? — perguntou Bronwen, erguendo a vista para mim.
— É verdade, Bron? — perguntei-lhe, esperando que ela dissesse que não.— Se você viu, então deve ser verdade.
— Haverá alguma complicação comigo por saber disso?
— A única complicação que você terá é a de ficar pensando nisso e ficarcom isso na consciência. Quem vai aonde não é desejado sempre arranja complicações. O mesmo acontece aos que metem o nariz onde não são chamados.
— Ficou zangada comigo, Bron?
— Zangada, não. Apenas surpresa. Pensava que você ia sair um homem de bem. Mas os homens de bem nunca se intrometem onde não devem. E, se acaso o fazem, guardam o segredo para si mesmos.
(...)
— Elas não tinham nada, mamãe — disse Angharad, sem nenhum sinal de medo. — Os patrões puseram-na para fora da casa sem nada. Nem um graveto, nem um farrapo. E o novo bebê deve vir hoje. Só tem palha para deitar-se em cima. E as sete outras crianças.
— Psiu, agora — disse minha mãe. — Já sei bastante. Vou ver isso. Mas não me faça mais dessas pelas minhas costas, de dar lençóis e cobertores. A dona da casa sou eu.
— Sim, mamãe — disse Angharad, piscando os olhos para mim, e eu para ela.
— Suponho — disse minha mãe, como se seu pensamento estivesse para lá da montanha — que nada mais saiu em companhia dos lençóis e cobertores, não é? Seria realmente exigir muito da Sr tá. Angharad Morgan?
— Pois bem, mamãe — disse Angharad, tão bonita, de se ficar de boca aberta —, havia também algumas marmitas e panelas velhas, lá fora.
— Adiante — disse mamãe. — Marmitas e panelas.
— E algumas das roupas velhas dos rapazes — contou Angharad nos dedos — e umas do papai.— E algumas das minhas — disse mamãe, num tom de voz quase impossível de ouvir-se.
— Sim, mamãe — disse Angharad —, e também das minhas. E minha capa.
— Sua melhor capa, sem dúvida — disse mamãe, no mesmo tom de voz e de fisionomia severa.
— Sim, mamãe — continuou Angharad. — Eu só a usava nos domingos e o inverno já se foi. Onde eles estão faz muito frio e só têm palha forrando o chão e buracos no telhado.
— Passe bem a vista por toda a casa — disse mamãe, com sua voz habitual —, porque acho que ainda encontraria muitas coisas que a Sra. Bey non precisaria. Mas talvez, se mandarmos vir uma carroça, poderíamos arranjar tudo, não?
— Oh! mamãe — disse Angharad, e seus olhos, já tão grandes, estavam agora maiores, cheios de lágrimas —, a pobre da Tegwen Bey non só tinha um vestido. Nada mais. E nem almoço para esta manhã. Estava tão branca, a coitada!
— Angharad, minha filhinha — disse minha mãe, indo cercá-la com os braços, pois ela havia empurrado seu jantar e baixara o rosto sobre a mesa. — Ouça, agora. Eu estava zangada porque não fui consultada. De outra vez, pergunte antes. Ouviu?
— Sim, mamãe — disse Angharad, pedindo o meu lenço. — Que poderemos fazer pelo novo bebê?
— Vá em casa de Bron e peca-lhe algumas das roupinhas velhas de Gareth.
Prepararei um cestinho de comida, agorinha mesmo. Huw, vá aí pela colina com um cesto e peça alguma sobra de comida que houver.
— Sim, mamãe.
Pois haviam de ver o que se conseguiu reunir!
As roupas teriam coberto uma turma inteira da mina. A comida, bastante para a vila toda. E já então estava reunido todo o mobiliário, que duas casas não conteriam.
Pois bem, tudo ali estava e não faltavam mãos para levar aquilo ao velho barracão, junto das fundições.
Desci lá primeiro, com o cesto de comida, e, realmente, era um lugar miserável.
A Sra. Bey non jazia sobre um de nossos velhos cobertores vermelhos e o outro estava armado por cima dela, para preservá-la da água que escorresse do telhado. Evan Bey non partira uma tábua para fazer fogo e, num velho balde, fervia a água. Rodas enferrujadas e tirantes de ferro quebrados vermelhejavamentre os capins altos e os dentes de leão. Os charcos estavam cheios de água e um ribeiro corria diretamente para o rio. Frio e umidade também.
As três crianças mais moças estavam dormindo aos pés da Sra. Bey non, eduas mais, ainda pequenas, brincavam de armazém, com pedras, na janela.
Tegwen e seu irmão menor punham palha em sacos, preparando camas para anoite.
— Olá, Teg — disse eu, parando à porta, embora porta não houvesse.
— Olá, Huw — disse ela, parecendo envergonhada. — Estamos metendo palha nos sacos. A palha vai fugindo debaixo da gente, quando nos viramos, dormindo — disse ela, tentando fazer graça.
— Sim, sim — disse eu, como se dormisse em cima de palha todas as noites
desde que nasci. — Trouxe aqui uma torta.
— Muito bem — disse ela. — Mamãe vai ficar muito contente quando a provar.
— E chá.
— Chá? Ó, meu Deus. Vou botá-lo na chaleira. Depressa.
— Como está a Sra. Bey non? — perguntei-lhe, pois, pelo que pude perceber, ela estava sentindo dores, gemendo, com espuma na boca, o rosto avermelhado, e o suor empastando-lhe o cabelo.
— A Sra. Price não tardará a chegar aqui agora —- disse Tegwen, soprando o fogo. — Então ela melhorará.
— Que tem que ver a Sra. Price com isso?
— É que então o novo bebê chegará, rapaz — disse Tegwen, rindo. — Foi para isso que Angharad me deu o lençol.
— É a Sra. Price então quem traz o bebê? — perguntei-lhe, muito surpreso.
Tegwen sentou-se, rindo bem alto, depois pôs uma mão na boca e olhou para sua mãe.
— Como você é tolo, rapaz — cochichou ela, com os olhos brilhantes. —Fique sabendo que o novo bebê está com a mamãe. Mas a Sra. Price é quem sabe como tirá-lo dela. Dê-me as xícaras, depressa. Eu não teria coragem de beber nas únicas xícaras que consegui encontrar, mas a Sra. Bey non bebeu à vontade, embora sem dar sinal de que soubesse onde se achava, ou o que estava bebendo.
— Onde está o novo bebê, então? — perguntei a Tegwen, pois não via sinais
disso.
— Morda aqui — disse Tegwen, mostrando o dedo. — Então você nada sabe a respeito de bebês? — E olhou-me como se pensasse que eu era um idiota.
— Não sei, não. Tivemos novos bebês lá em casa e na de Bron, mas eu pensava que era o Dr. Richards quem os trazia dentro da maleta.
— Quem lhe contou isso?
— Minha mãe e Bron.
— Tudo é mentira.
— Como sabe? Você só tem doze anos e precisa ainda de um ou dois anos de
escola.— Mentiras. Espere e verá.
— Como, então?
— Quando a Sra. Price chegar, nos mandará para fora daqui, de modo que daremos a volta por detrás e olharemos por aquele buraco lá em cima. Ergui a vista para onde ela apontava e vi uma tábua podre, meio dependurada do forro, que descobria um buraco escuro.
— Está bem — disse eu.
Depois começou a chegar gente com as coletas e todas as mulheres diziam
”Oh!” ”Ah!” estalando as línguas, tirando as capas para limpar o lugar, cortar o capim e afastar o ferro velho. Depois começaram a chegar os homens, amarrando cordas para armar lonas por cima dos lugares piores, e pondo tábuas na janelas e portas abertas. O certo é que, num par de minutos, ficou tudo tão bem-arrumado que eu mesmo poderia ali viver.
O Sr. Bey non entrou e olhou por um instante, saindo a chorar. Em seguida, veio a Sra. Price com uma trouxa e uma elegante maleta, cheia de desenhos, feita de lona.
— Agora — disse ela, mal pondo os pés dentro da porta — vocês dois me façam o favor de dar o fora. Todos os meninos, agora mesmo. Vamos logo.
— Venha — cochichou-me Tegwen, e saímos, lá para o terreiro, subimos os degraus das oficinas e entramos onde os morcegos se apinhavam no telhado e voavam com cicios enraivecidos.
Aproximamo-nos do buraco e espiamos.
A Sra. Price havia colocado as crianças menores na armação de cama, ao lado, e a outra mulher, que estava com ela, tirava-lhes as roupas. A Sra. Bey non chorava, não baixinho, mas alto, como um menino que caiu e ralou um joelho.
Dava pontapés nas roupas e seu rosto estava inchado, cheio de veias.
— Coitada da mamãe — disse Tegwen, bem baixinho —, ela sempre sofre assim com cada bebê.
Tive vontade de perguntar por quê, mas não tinha nada com isso. Havia algo de feio e de cruel naquilo, que eu podia sentir mas não descrever. A Sra. Bey non era uma mulher grande e gorda, sempre muito alegre, mas vê-la naquele estado era o mesmo que estar em sonho. Comecei a sentir calor e dificuldade emrespirar.
Subia até nós também um cheiro estranho. Muitas vezes o senti perto de casas onde um bebê acabava de chegar. É um cheiro intenso, primitivo, contendo os segredos do sangue e do leite, com ternura e terror.
A Sra. Price dirigiu-se ao fogo e trouxe de lá o balde para o lado da cama. A Sra. Penry acabara de arrumar as crianças e viera colocar-se à cabeceira da Sra. Bey non. A Sra. Price puxou os cobertores logo que a Sra. Bey non começou a dar gritos, e a Sra. Penry guiou-lhe as mãos para a barra de madeira, que havia à cabeceira da cama. As crianças acordaram e começaram a chorar, masninguém se incomodou com elas. As pernas da Sra. Bey non pareciam hastes
brancas e davam pequenos pontapés, seus dedos se encurvavam e seus calcanhares escarvavam a cama. A boca escancarada a gritar e os olhos arregalados, selvagens, horrível de ver-se, voltada para cima como estava para mim. A Sra. Price e a Sra. Penry estavam fazendo alguma coisa com ela, mas o que fosse não tenho certeza, pois apenas podia ver-lhes as costas lá embaixo e os morcegos voejavam em torno de nós, despertados do sono pelo choro, pelo lamento, pelo soluço e pelos gritos, arremetendo para nosso lado, como se nós tivéssemos alguma coisa com aquilo.
— Lá está — disse Tegwen, no meu ouvido, puxando meu braço para eu ficar
mais perto do buraco. — Veja. Lá está o novo bebé.
Mas só consegui avistar alguma coisa avermelhada, naquela luz sombria roupas manchadas nas mãos torcidas da Sra. Price, por cima do balde, e os dedos dos pés da Sra. Bey non, agora sossegados. Voltei-me envergonhado e enojado, pois sentia que estivera num lugar onde somente os loucos deveriam pôr o pé.
— Deixe-me ir embora daqui — disse eu.
— Espere — disse Tegwen. — Ainda há muito mais coisa para ver.
— Vou-me embora daqui agorinha mesmo — repliquei e arrastei-me sobre mãos e joelhos para a entrada.
— Acredita agora? — perguntou Tegwen, com risos na voz.
— Sim — respondi, enjoado, baixando a vista para os negros degraus.
— Veja lá, não vá contar a ninguém. Senão haverá encrenca, na certa.
— Está bem. Agora, adeus — disse eu e atravessei o terreiro, o mais depressa que pude. Selvagem alegria me invadiu ao achar-me ao ar livre e senti-lo arrepiar-me. Achei que merecia mais do que um arrepio de frio. Achei que deveria lançar-me na boca dum poço de mina, ou sob as rodas dum carro de feno, ou emaranhar-me na engrenagem do elevador da mina, tão rebaixado me sentia. Mas, em vez disso, corri para a casa de Bron e sentei-me na cadeira habitual.
Bron estava passando roupa, borrifando água nas roupas brancas engomadas, cuspindo no ferro para sentir-lhe o calor, apoiando-o com força nas peças lisas, para dar-lhes polimento, e docemente sobre os babados e bordados.
— Então — disse ela —, como vai o grande homem, esta noite?
— Acabo de ver a chegada de um novo bebê para a Sra. Bey non.
Bronwen continuou a passar, como se nada houvesse ouvido, mas seu rosto se avermelhara e seus olhos piscavam, como se o calor do ferro fosse demasiado.
— Como aconteceu isso? — perguntou-me ela, mas serenamente e olhando ainda para a roupa lavada.
— Estive olhando pelo buraco duma tábua.
— E agora está satisfeito? — perguntou Bronwen, erguendo a vista para mim.
— É verdade, Bron? — perguntei-lhe, esperando que ela dissesse que não.— Se você viu, então deve ser verdade.
— Haverá alguma complicação comigo por saber disso?
— A única complicação que você terá é a de ficar pensando nisso e ficarcom isso na consciência. Quem vai aonde não é desejado sempre arranja complicações. O mesmo acontece aos que metem o nariz onde não são chamados.
— Ficou zangada comigo, Bron?
— Zangada, não. Apenas surpresa. Pensava que você ia sair um homem de bem. Mas os homens de bem nunca se intrometem onde não devem. E, se acaso o fazem, guardam o segredo para si mesmos.
— Estou
arrependido de ter falado. Mas precisava falar alguma coisa com
alguém. Que coisa terrível foi aquilo, Bron.
— Bico calado, agora. Vá comer. Está com fome?
— Estou, sim.
— Está bem. Ponha a mesa. Estava justamente saindo para ir à casa de mamãe, buscar meu prato de comida.
Mas fiquei sabendo que ela fora a nossa casa, a fim de contar a mamãe.
É uma sensação esquisita a que a gente tem, quando sabe que uma
complicação se está formando e esperando por nós, dentro de curto prazo. É como se a gente tivesse uma janela aberta na barriga e todos os temores metendo as mãos por ela, negligentemente, não para bater, mas para causar desconforto.
— Mamãe quer ver você — disse Bronwen, quando voltou, sem o prato de comida.
— Você fez queixa de mim.
— Fiz, sim. Sua mãe ficou sabendo. Você veio ter comigo, mas deveria ter
ido primeiro falar com ela.
— Nunca pensei que você fosse fazer queixa de mim, Bron. Eu nunca faria
uma coisa dessa com você.
— Vá saindo, rapaz — disse Bronwen, meio sorridente e meio carrancuda. —
Ninguém fez queixa de você. Há muita coisa de importância nessa sua cabeça e eu nada posso fazer para esclarecê-lo. Sua mãe é quem deve fazer isso. Coma
alguma coisa e vá para casa, sim?
— Não. Se vai haver complicação, prefiro ir agora mesmo.
Dessa forma saí, sem dar boa-noite, e caminhei diretamente para nossa casa, onde encontrei minha mãe sozinha, na cozinha, cerzindo meias.
— Muito bem — disse ela, ocupada, cuidadosamente, em puxar um fio.
— Pronto, mamãe.
Brilhavam os seus olhos cinzentos, quando ergueu a vista para mim, por cima da agulha cintilante. Nada havia neles que me amedrontasse, mas eu tremia.
— Bico calado, agora. Vá comer. Está com fome?
— Estou, sim.
— Está bem. Ponha a mesa. Estava justamente saindo para ir à casa de mamãe, buscar meu prato de comida.
Mas fiquei sabendo que ela fora a nossa casa, a fim de contar a mamãe.
É uma sensação esquisita a que a gente tem, quando sabe que uma
complicação se está formando e esperando por nós, dentro de curto prazo. É como se a gente tivesse uma janela aberta na barriga e todos os temores metendo as mãos por ela, negligentemente, não para bater, mas para causar desconforto.
— Mamãe quer ver você — disse Bronwen, quando voltou, sem o prato de comida.
— Você fez queixa de mim.
— Fiz, sim. Sua mãe ficou sabendo. Você veio ter comigo, mas deveria ter
ido primeiro falar com ela.
— Nunca pensei que você fosse fazer queixa de mim, Bron. Eu nunca faria
uma coisa dessa com você.
— Vá saindo, rapaz — disse Bronwen, meio sorridente e meio carrancuda. —
Ninguém fez queixa de você. Há muita coisa de importância nessa sua cabeça e eu nada posso fazer para esclarecê-lo. Sua mãe é quem deve fazer isso. Coma
alguma coisa e vá para casa, sim?
— Não. Se vai haver complicação, prefiro ir agora mesmo.
Dessa forma saí, sem dar boa-noite, e caminhei diretamente para nossa casa, onde encontrei minha mãe sozinha, na cozinha, cerzindo meias.
— Muito bem — disse ela, ocupada, cuidadosamente, em puxar um fio.
— Pronto, mamãe.
Brilhavam os seus olhos cinzentos, quando ergueu a vista para mim, por cima da agulha cintilante. Nada havia neles que me amedrontasse, mas eu tremia.
Nada se escutava no silêncio da casa a
não ser o relógio e, às vezes, o fogo tranquilo.
— Soube que você tinha estado em alguma parte — disse minha mãe.
— Estive, sim, mamãe.
— E que viu alguma coisa.
— Vi, sim, mamãe.
— Por quê? — e a voz dela era de gelo.
Há perguntas que não podem ser absolutamente respondidas, de modo que olhei para suas chinelas e pareceu-me que as horas corriam.
— Sente-se bem? — perguntou minha mãe, com ligeiro tremor na voz, que me fez sentir-me ainda pior.
— Sim, mamãe.
— O papai terá uma conversa com você. Agora vá para a cama.
— Sim, mamãe — disse eu, e ela aproximou o rosto para que a beijasse.
Segui para minha cama, no quarto de trás, grato por encontrar-me na fria escuridão. Não posso dizer quanto tempo estive adormecido, quando despertei e vi meu pai, que olhava para mim, com o candeeiro na mão.
— Sinto ter que acordá-lo, meu filho — disse ele. ·— Soube que você arranjou uma complicação esta noite.
— Sim, papai. Tenho que tirar minha camisa?
— Fique onde está, rapaz —- disse meu pai, esboçando um sorriso. — Não vou dar-lhe uma surra. Quero só conversar. Está bem acordado e atento?
— Estou, sim, papai.— Então, muito bem. Preste-me atenção. Esqueça tudo quanto viu. Não se preocupe. Afaste seu pensamento disso. Você nada tem que ver com isso. Mas sirva-lhe de experiência. Agora você já sabe quanto sofrimento causa às mulheres a vinda dos homens ao mundo. Lembre-se disso e pense a esse respeitoem sua mãe e em todas as mulheres.
— Soube que você tinha estado em alguma parte — disse minha mãe.
— Estive, sim, mamãe.
— E que viu alguma coisa.
— Vi, sim, mamãe.
— Por quê? — e a voz dela era de gelo.
Há perguntas que não podem ser absolutamente respondidas, de modo que olhei para suas chinelas e pareceu-me que as horas corriam.
— Sente-se bem? — perguntou minha mãe, com ligeiro tremor na voz, que me fez sentir-me ainda pior.
— Sim, mamãe.
— O papai terá uma conversa com você. Agora vá para a cama.
— Sim, mamãe — disse eu, e ela aproximou o rosto para que a beijasse.
Segui para minha cama, no quarto de trás, grato por encontrar-me na fria escuridão. Não posso dizer quanto tempo estive adormecido, quando despertei e vi meu pai, que olhava para mim, com o candeeiro na mão.
— Sinto ter que acordá-lo, meu filho — disse ele. ·— Soube que você arranjou uma complicação esta noite.
— Sim, papai. Tenho que tirar minha camisa?
— Fique onde está, rapaz —- disse meu pai, esboçando um sorriso. — Não vou dar-lhe uma surra. Quero só conversar. Está bem acordado e atento?
— Estou, sim, papai.— Então, muito bem. Preste-me atenção. Esqueça tudo quanto viu. Não se preocupe. Afaste seu pensamento disso. Você nada tem que ver com isso. Mas sirva-lhe de experiência. Agora você já sabe quanto sofrimento causa às mulheres a vinda dos homens ao mundo. Lembre-se disso e pense a esse respeitoem sua mãe e em todas as mulheres.
Enfim um começo.
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